Desde o começo da astrologia, é evidente virtualmente em todas as fontes (Ex. Persas, Gregas, Hindus e Egípcias) que divisões de tempo e espaço foram conferidas aos planetas e signos em quantidades semelhantes. Uma vez que o tempo não é nada mais que um sistema de contagem, porque não poderemos usar divisões de arco ou os anos distribuídos de acordo com os signos e planetas para contar o tempo ou vice-versa? O que poderia ser mais natural que criar algum género de esquema para relacioná-los? Algo como este tipo de raciocínio deve ter dado origem aos cronocratores e às direcções, como nós as conhecemos. Assim, em direcções primárias um grau do equador celeste equivale a um ano; em profecções um signo (30 graus de longitude da eclíptica) equivale a um ano, um mês, um dia ou grupo de dias. Como os Dasas Indianos, ou os cronocratores de Valens baseados no tempo ascensional dos signos, ou os decénios de Firmicus, e as Idades do Homem: a Firdaria é um certo número de anos regido pelos planetas em uma certa ordem que depende do sect do mapa, i.e. se o mapa é de um nascimento diurno ou nocturno.


Haviam cronocratores, i.e. regentes do tempo gerais onde uma específica duração de tempo era conferida a um signo ou planeta baseada no tempo ascensional do signo ou do período planetário regido pelo planeta. E então existiam regentes de um tempo específico indicado por alguma medida de arco, quer da eclíptica ou do equador celeste. A Firdaria é da primeira categoria, a dos cronocratores.


A Firdaria foi introduzida por Abu Ma’shar. Não existe nenhuma referência a ela antes dele. Não existe nada no registo histórico que tampouco confirme ou negue a sua existência anterior a Abu Ma’shar. A Firdaria é uma técnica de atribuição de cronocratores (regentes do tempo) entre muitas técnicas ensinadas durante a Era Helenística e Árabe. Não existe nenhum registo escrito da astrologia praticada na metade da Era Persa (os Sassanianos) mas encontramos certas doutrinas introduzidas na Era Arábe por astrólogos com um pé em ambas as escolas. Estes astrólogos foram Kankah al-Hindi, Masha'allah, 'Umar ibn al-Farruhan at-Tabari e obviamente Abu Ma’shar que veio da Pérsia (Balh). E.S. Kennedy no seu livro The Sassanian Astronomical Handbook, cita Al-Biruni como que dizendo que Masha’allah e ‘Umar estão a meio caminho entre os Persas e Abu Ma'shar.


É supostamente no livro de Abu Ma’shar, “The Thousands” que a Firdaria é discutida em maior detalhe; com interesse nas suas origens e uso. Porém, este Livro não é mais existente excepto em extractos nos escritos de outros. Abu Ma’shar menciona a Firdaria na sua “Great Introduction”, contudo o uso específico e orientações para o seu uso são mais claramente apresentados na sua obra “On Solar Revolutions”.

 

 

Irá ser útil para nós examinarmos este ensinamento na fonte, Abu Ma’shar. [1]

 

 

“Cada uma das sete estrelas, e os Nodos Ascendente e Descendente, têm certos tempos determinados, e cada estrela governa para o nativo em concordância com a sua própria firdar. A firdar do Sol, então, é 10 anos; de Afrodite, 8; de Hermes, 13; da Lua, 9; de Kronos, 11; de Zeus, 12; de Ares, 7; do Nodo Ascendente, 3; do Nodo Descendente, 2 – no conjunto, eles são 75. [2]

 

 

No caso de uma natividade diurna, o Sol assume a regência [3] da primeira firdar, onde quer que esteja presente, depois Afrodite, depois Hermes, depois a Lua, depois Kronos, em concordância com a ordem das suas zonas. [4] No caso de natividades nocturnas, a Lua assume a primeira firdar, depois Kronos, depois Zeus, depois Ares, conforme a ordem anterior. [5] A não ser que quando uma das estrelas é a regente, ela mesma rege [6] um sétimo dos seus próprios anos; depois as restantes estrelas participam com ela em um significado para coisas boas ou ruins de acordo com um sétimo da sua própria firdar. E o começo será a partir da estrela que possui a firdar, enquanto que a estrela situada logo abaixo dela participará primeiro, depois a estrela seguinte a esta. --- a razão para a participação das estrelas restantes com a primeira estrela é que os anos da firdar de cada estrela foram extraídos daquelas que têm uma relação para com os doze zoidia; mas de uma forma peculiar, os Nodos Ascendente e Descendente, uma vez que eles não participam mais com nenhuma estrela, assumem a regência somente após a conclusão dos anos das sete estrelas e após o nativo ter completado setenta anos, porque eles não têm domicílios.” [7]

 

 

No final deste Tratado na Secção 7, Abu Ma’shar continua a sua instrução nas suas próprias distribuições acrescentando;

 
 

“E no caso de natividades diurnas, os nodos distribuem-se depois de Ares; mas no caso de natividades nocturnas, depois de Hermes. Quando os setenta e cinco anos tiverem terminado, a divisão da firdar retorna ao luminar do qual ela começou no início da natividade, em concordância com a ordem da qual falámos anteriormente. No segundo período [de vida], os efeitos irão resultar tal como explicámos antes para o primeiro período. Mas se a vida do nativo for além dos setenta e cinco anos ou for inferior aos setenta e cinco anos, a sua morte irá ser na Firdaria da estrela na qual [a distribuição] chegou de acordo com o método estabelecido anteriormente. [8] E os significados das estrelas nas suas firdarias são ambas tão peculiares para elas mesmas e em parcerias com outras. Em acréscimo a estes assuntos, é necessário examinar se os significados destas estrelas na determinação da natividade estavam também beneficiados ou corrompidos, e para também fornecer uma opinião relativa aos efeitos particulares em relação à disposição das estrelas no nascimento.” [9]

 

Firdaria – de acordo com Abu Ma'shar – Clique aqui

 

 

Quando estas técnicas foram introduzidas na Europa no século 13, elas vieram através de Abu Ma'shar “Greater Introduction” e de Alchabitius “Introduction to Astrology” as quais foram traduzidas primeiramente em Latim por dois tradutores na Espanha medieval no século 12. É através destas traduções que Bonatti explica as Firdarias no seu “Liber Astronomiae”. “On Solar Revolutions” só foi traduzido mais tarde no século 15.

 


A razão pela qual eu explico isto é porque existem duas escolas de pensamento no que diz respeito à ordem da série nocturna da Firdaria. Existe alguma ambiguidade na explicação de Bonatti quanto à ordem nocturna da Firdaria. Bonatti, ao parafrasear Abu Ma’shar explica a Firdaria deste modo;

 
 

“Os sábios antigos consideravam certos anos nas natividades que não eram chamados maiores ou médios ou mesmo menores, [10] mas eles chamavam-lhes os anos da Firdaria, isto é, anos determinados. Pois cada planeta determina a sua própria parte da vida do nativo de acordo com a sua parte de anos da Firdaria neste método.


 

Qualquer que seja o tipo de natividade, a distribuição dos anos da Firdaria começa a partir do luminar cujo domínio lhe pertence [11] e esse luminar determina a vida do nativo em concordância com o domínio dos seus anos da Firdaria, porém não sem a participação dos outros planetas.


 

Pois se a natividade for diurna, começará a partir do Sol, que é o luminar diurno, o qual dispõe da vida do nativo de acordo com a quantidade de anos da Firdaria, os quais são 10, com a participação de todos os outros planetas, mas ele mesmo irá obter o domínio especialmente na primeira sétima parte desses anos.”


 

Portanto Bonatti apresenta a ordem da distribuição dos planetas exactamente como Abu Ma’shar faz para a série diurna da Firdaria. Eu não as irei repetir. Quando chega à série nocturna, Bonatti continua,

 
 

“Mas se a natividade for nocturna a distribuição começará a partir da Lua que é o luminar nocturno e irá ser em todos os aspectos como foi explicado quando começava a partir do Sol tanto no que respeita à participação dos planetas com a Lua como no que respeita à sucessão dos mesmos na ordem do círculo.


 

E todos os significadores ou dispositores acima mencionados se estiverem bem colocados aumentarão o bem e diminuirão o mal.


 

E se eles estiverem mal colocados aumentarão o mal e diminuirão o bem. Este é um assunto laborioso, contudo, deverá ser bem examinado porque alguns astrólogos, evitando o labor, nem sequer consideram isto [a Firdaria] nos seus julgamentos, por isso eles caiem em erro.” [12]

 

 

Eu direccionaria a atenção dos leitores particularmente para estas palavras de Bonatti, “Mas se a natividade for nocturna a distribuição começará a partir da Lua que é o luminar nocturno e irá ser em todos os aspectos como foi explicado quando começava a partir do Sol tanto no que respeita à participação dos planetas com a Lua como no que respeita à sucessão dos mesmos na ordem do círculo.”

 
 

A ambiguidade desta afirmação é a de que a Firdaria da Lua deveria seguir “em todos os aspectos” a ordem da Firdaria do Sol. Embora Bonatti estipule isso ao dizer “no que respeita à sucessão dos mesmos na ordem do círculo”, no qual ele claramente se refere à sucessão planetária da ordem Caldaica. Porém, a vaga ambiguidade levou alguns astrólogos modernos contemporâneos medievais, a colocar os nodos da Lua a seguir à Firdaria de Marte na série nocturna; exactamente como na ordem da sequência diurna. De acordo com este entendimento de Bonatti, devemos colocar os nodos no mesmo lugar tanto na série diurna como na nocturna, depois da Firdaria de Marte.

 
 

Deve-se dizer que esta mesma ambiguidade existe na curta introdução de Abu Ma’shar quando ele afirma, “No caso de natividades nocturnas, a Lua assume a primeira firdar, depois Kronos, depois Zeus, depois Ares, conforme a ordem anterior.” Se esta afirmação fosse tudo o que alguém tivesse para trabalhar ela levantaria muitas questões e muita ambiguidade, apenas quanto ao que Abu Ma’shar afirma.


 

Firdaria – como entendida por Bonatti – Clique aqui

 

 

Contudo, em “On Solar Revolutions”, Abu Ma’shar não limita a sua explicação a esta breve e ambígua afirmação. Em vez disso, ele afirma claramente, “…mas de uma forma peculiar, os Nodos Ascendente e Descendente, uma vez que eles não participam mais com nenhuma estrela, assumem a regência somente após a conclusão dos anos das sete estrelas e após o nativo ter completado setenta anos, porque eles não têm domicílios… E no caso de natividades diurnas, os nodos distribuem-se depois de Ares; mas no caso de natividades nocturnas, depois de Hermes.”

 
 

Que Bonatti quisesse dizer que a Firdaria nocturna devesse em todos aspectos seguir a diurna, excepto que ela começaria a partir da Lua em vez do Sol, é em si questionável. Não o é com Abu Ma’shar que é quem introduziu a Firdaria na prática medieval. Se Bonatti está a errar aqui é porque poderá existir alguma ambiguidade nas palavras de Abu Ma’shar, tal pode lhe ser perdoado visto que ele não estava por perto quando “On the Solar Revolutions” foi traduzido após a sua morte. Montulmo muito provavelmente terá possuído a obra final de Abu Ma’shar pois no século 15 ele reitera a ordem correcta de Abu Ma’shar.

 
 

Aqueles que seguem este entendimento ambíguo das palavras de Bonatti têm encontrado alguma justificação visto que muitas natividades nocturnas têm sofrido coisas nesta idade, a partir dos 42 anos, que poderiam facilmente ser atribuídas ao período do Nodo Sul. Contudo, investigação recente também revela outras causas possíveis deste período o qual se relaciona com a “crise da meia-idade”. Robert Zoller, por exemplo, tem sugerido uma relação deste período com “os Anos Críticos” tal como é explicado no Liber Hermetis. Naturalmente existe o facto de que 42 é metade de 84 (ciclo de Urano) e também de 3.5 ciclos de Júpiter. É a Profecção do Ascendente na sétima casa e relaciona-se com o ciclo da conjunção Saturno-Marte e o ciclo de 2 anos nominais das oposições de Marte. Abu Ma’shar sugere que a severidade e sofrimento destes anos são o resultado de Marte assumir a regência natural deste período que se inicia aos 41 anos. Estes eram denominados “as Idades do Homem” onde cada planeta tinha um significado natural para um determinado número de anos no desenvolvimento de um nativo.


 

A questão é que enquanto esta ambiguidade no texto de Bonatti poderá ser uma sorte “acidental” e correcta, poderá provavelmente “não” ser, uma vez que existem indicadores igualmente interessantes que podem explicar este período ainda melhor que o período nodal mal colocado na série nocturna.

 
 

Quando trabalhando com a Firdaria, talvez seja sábio ainda não gravar nada em pedra, mas usar ambas as séries da Firdaria nocturna, mantendo uma mente aberta e testar ambas. Nós precisamos de abordar estas técnicas anciãs preditivas, quer seja Firdaria, Profecções, Direcções Primárias, Revoluções Solares etc. com humildade e deixando-nos abertos para a possibilidade de que o nosso entendimento possa por vezes ser imperfeito ou mesmo carecer completamente de aconselhamento sobre o assunto. Nós ainda estamos no processo de aprendizagem e de recuperação de uma boa quantidade de coisas do passado e é por isso muito perigoso gravar algo em pedra.

 

 

Lentamente aprendemos,

 

Steven Birchfield

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Tratado IV – “On Solar Revolutions” – por Abu Ma’shar, traduzido e anotado por Robert Schmidt e publicado por Project Hindsight ©1999

 

[2] É importante notar que 70 anos (a soma da Firdaria planetária sem a Firdaria nodal) igualam 3650 semanas regulares, ou o equivalente a um “ano” em “semanas” consistindo de 70 dias cada.

 

[3] kebernësis. O texto em Latim traduz isto como disposito.

 

[4] Isto é, em ordem Caldaica descendente.

 

[5] Como é claro no parágrafo final neste tratado sobre Firdaria, os nodos continuam a ser colocados em último na sequência das natividades nocturnas.

 

[6] diepõ. Na tradição helenística, este verbo também é usado para a regência de uma hora de um dia de acordo com o sistema de horas planetárias. O texto em Latim traduz esta palavra grega como dispono, não fazendo qualquer distinção entre este e o verbo kubernaõ que usualmente se aplica ao regente da Firdaria, não ao regente de uma das suas subdivisões.

 

[7] Os nodos desta forma têm um papel de certa maneira especial. Eles têm determinados períodos de tempo ou Firdaria associados a eles, tal como os planetas. Contudo, eles não podem assumir a regência das subdivisões da Firdaria planetária – isto é, eles não podem participar com os planetas que governam a Firdaria; nem os seus próprios períodos são subdivididos e partilhados pelos outros planetas. No final da série de futuras delineações, os nodos são de facto anexados no final da lista de planetas participantes e distribuidores de tempo na Firdaria de Ares, sem títulos de capítulos separados ou especial anúncio, de qualquer forma sem dizer que eles distribuem tempo dentro da Firdaria de Ares. Então Abu Ma’shar aqui considera-os como tendo um papel semelhante ao dos planetas participantes, eles apenas não têm nenhum planeta com o qual participar; por outro lado, eles são tratados como se pudessem ter a regência (kebernësis) de uma Firdaria como os planetas, no entanto ele aqui diz que eles têm a regência (diepõ) de um período de tempo, o qual é o verbo que parece ser reservado para o papel dos planetas participantes.

 

[8] O verbo katëntëse aqui não tem um sujeito óbvio nesta frase. Na suposição de que “o método estabelecido anteriormente” se refere aos procedimentos directivos dispostos no precedente Tratado III, eu forneci “a distribuição” como sujeito, a ideia sendo que se a distribuição e distribuidor indicam a morte em um certo momento, a morte não será certa a menos que o distribuidor para esse momento esteja na sua própria Firdaria.

 

[9] Esta última frase diz-nos como especificar os regentes da Firdaria e os seus planetas participantes para um determinado mapa natal, examinando ambos os factores que os beneficiam ou os corrompem, assim como as suas posições por casa e regências de forma a fazer delineações gerais da Firdaria mais específicas.

 

[10] Isto claramente se refere aos maiores, médios e menores anos associados aos planetas. Ex., os anos maiores do Sol são 120 anos, os seus anos médios são 69.5 anos e os seus anos menores são 19 anos.

 

[11] I.e., o luminar do mapa é determinado se a natividade é diurna (dia) ou nocturna (noite). O Sol rege as natividades do dia e a Lua as da noite.

 

[12] Tractus de nativitatibus, Capítulo III – “Liber Astronomiae” – por Guido Bonatti, traduzido por Robert Zoller e publicado em ”Tools and Techniques II” 3ª edição © Robert Zoller e New Library Limited 2003.

 

Tradução da versão inglesa por,

Paulo Alexandre Silva, DMA

 

 


 

Texto gentilmente cedido por Steven Birchfield, A.M.A.

Divine Astrology

 

 

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